Rastros no Rio - Crônica sobre a Pororoca no Rio Moju

By | julho 17, 2018 Faça um comentário
Caros leitores do blog,

Nosso cronista mojuense Antônio Cristo, o Toninho nos brinda com mais uma crônica que retrata muito bem nossa cultura, nossa memória, e que com muita propriedade nos remete às histórias deste Rio das Cobras, que são tantas, desde tempos imemoriáveis são contadas e que com este trabalho com certeza não serão esquecidas. Trabalhos assim são importantes para essa preservação além de seu conteúdo cultural, visto que essa manutenção da memória de nosso município é de suma importância.
Leiam e se deliciem com este texto maravilhoso.


RASTROS NO RIO

Aquele mês era prazerosamente esperado.
Março!
Mês da chuva grossa. Do verde mais esverdeado. Da lua cheia que brota no fim do estirão! Da maré alta.
Do mês da pororoca!
Pra quem nunca avistou, era uma onda forte que “rasgava” o rio. Enxergava-se a quilômetros de distância. Despontava no fim do estirão do baixo rio Moju.
Metade branca, metade escura.
Num “piscar de olhos” desaparecia e boiava nas margens do outro lado. Arrebatava troncos e toras. Quebrava árvores. Molhava o caule e lambia as folhas dos açaizeiros que emparedavam as encostas do rio.
           O povo corria eufórico para celebrar sua chegada.
Joga cachaça! Joga tabaco! Quem sabe acalma! Alguns gritavam.
Medo não causava, apenas êxtase. O ribeirinho ficava embebido de felicidade. Fugia da rotina.
Parecia que a água queria reunir-se a terra.
Naquele dia o povo “descia” e agasalhava-se à beira do rio. Os destemidos espremiam-se no trapiche para sentir a pancada nas vigas de madeira.
A onda não permitia barcos e canoas atracados. Melhor que ficassem ao sabor do vento. Assim cantam nossos poetas, “os barcos soltam-se com medo de naufragar”.
Naquela manhã águas salobras molhariam a cidade. Não falhava!
O fogo do almoço era desligado. A comida haveria de esperar. A pororoca, não!
Contam os mais velhos que, certa vez, subiu até a escadaria da igreja.
            Naquele dia do mês o povo estaria frenético e mais feliz. Não era um dia igual aos outros.
 Para alguns, inexplicável. Para outros, uma lenda. Dois meninos ribeirinhos naufragaram num botinho. Um era branco e o outro preto.
De repente o rio enche.
A onda passa. A “maré” cresce.
E a água toma o seu curso natural. Corre rumo à nascente do rio Moju. Lá se vão miritis, taperebás e açaís que não foram catados.
O povo retorna à calmaria, sem sofreguidão. Para os que viram, fica o encantamento. Para os que não viram a cisma eterna. Todos ouvirão tuas histórias.
           Naquelas águas correm lágrimas tristes da adolescência.
A onda passou como turbilhão. Daqui a um ano há de molhar este chão. Março chegará!
Os dias se passam. Março chega. Anos se vão. Não voltaste. Não disseste adeus!
Não mais beijaste a terra do Santíssimo. Logo tu, que alvoroço causaste!
Só nos restam poesias, músicas e histórias.
Vez ou outra vagueia o olhar no fim daquela mata.
Quem sabe não ouço o estampido daquela onda.
Saudade do desassossego daquele dia, que me inebriava. A paz que hoje deixa de ocupar o coração desse povo.
Vem pororoca! Derrama tua história. Naufraga e arrasta esse povo.
Vem! Afugenta essa rotina. Respinga e acalma essa gente!
Devolve-me a paz de novo.

                                                                       ANTONIO LÚCIO CARDOSO CRISTO
A crônica homenageia a pororoca, um fenômeno que ocorria nas águas do Rio Moju, no mês de março, até meados da década de 80 e criava um “desassossego” no povo da cidade.


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